Walfredo tem 189 itens em falta e alerta para ‘extrema gravidade’

Walfredo Gurgel opera no limite e alerta Sesap sobre falta de remédios vitais, luvas e seringas| Foto: Adriano Abreu

Memorando da Divisão de Farmácia aponta desabastecimento total de 25% dos insumos e cita falta de medicamentos e materiais essenciais; Sesap nega risco imediato à assistência.

A Divisão de Farmácia do Hospital Walfredo Gurgel alertou, nesta sexta-feira, a Secretaria de Saúde do Estado para a falta de 189 itens – entre eles insumos básicos como luvas e agulhas e medicamentos vitais para a saúde dos pacientes, como a noradrenalina. Segundo o memorando da unidade, o cenário é de “extrema gravidade e vulnerabilidade assistencial”.


A secretária adjunta de Saúde Pública do Rio Grande do Norte (Sesap), Leidiane Queiroz, em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, contesta que o cenário no Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel seja crítico ou alarmante e assegura que não há risco imediato à assistência dos pacientes. Segundo a gestora, eventuais falhas na entrega decorrem de entraves com fornecedores e, na maioria dos casos, não decorrem de falta de pagamento.

Segundo o documento da Divisão de Farmácia, o Walfredo Gurgel tem operado com 25% do catálogo de insumos em desabastecimento total. São 189 itens. Além disso, 11% dos insumos necessários para o funcionamento da unidade estão em nível crítico, ou seja, há quantitativos suficientes para menos de 1 mês de trabalho. Apenas 64% do estoque hospitalar é considerado regular, com quantidades suficientes para mais de um mês. São 482 itens.


Entre os insumos em falta, estão desde materiais básicos de proteção e aplicação — como luvas de procedimento (só o tamanho M consome mais de 126 mil unidades por mês), seringas de vários tamanhos, agulhas, esparadrapos e água destilada para diluir remédios — até itens usados para manter pacientes vivos e respirando.


Faltam, por exemplo, remédios essenciais para controlar a pressão em casos graves de UTI (como a noradrenalina), calmantes, analgésicos fortes como morfina, antibióticos injetáveis e soro fisiológico. A crise atinge também as cirurgias de urgência e emergência, com estoque zerado de tubos para intubação, sondas para puxar secreção do pulmão, drenos para o peito, agulhas de anestesia, bisturis e fios para costurar cortes cirúrgicos.

A Divisão de Farmácia do Walfredo Gurgel também afirma que 72% dos itens em nível crítico estão com processos de aquisição tramitando, o que representa “a prova concreta de que o cenário atual não decorre de inação ou atraso da Divisão de Farmácia”.


O memorando afirma que o gargalo atual do abastecimento ocorre por “tramitação e prazos de liquidação”, “ausência de orçamento para empenho dos processos”, “descumprimento de prazos de entrega por inadimplemento” e “morosidade e entraves em certames licitatórios ou registros de preços”.


“A demora no desfecho desses processos tem gerado ruptura no estoque. Como consequência, a Divisão de Farmácia vem sofrendo constantes e severas cobranças por parte das equipes médicas, de enfermagem etc., dos setores assistenciais e de urgência. A rotina da divisão tem se concentrado no manejo diário de crises e no contingenciamento de insumos básicos, cenário que extrapola a capacidade de resolução isolada deste setor”, aponta o documento.

Dívida menor

Para conter os atrasos e regularizar a entrada de itens com estoques no limite, a Sesap afirma manter um trabalho diário de negociação direta com as empresas fornecedoras, além de adotar medidas administrativas. De acordo com Leidiane, a pasta tem notificado e punido fornecedores que descumprem contratos, com sanções que variam de multas financeiras ao impedimento de licitar com o poder público.


“Então, alguns itens vão ficando em estoque crítico porque a gente está aguardando algumas entregas ou o fornecedor prometeu entregar e não entregou. Então, assim, a logística de acompanhamento dessas demandas é muito complexa, ela é muito árdua, mas eu posso lhe assegurar com certeza que a nossa prioridade é não faltar itens críticos”, relata.


Ao mesmo tempo, o Estado tem recorrido a remanejamentos internos entre hospitais da própria rede e articulações interestaduais de empréstimo para não permitir a descontinuidade no atendimento a pacientes graves enquanto novas atas de registro de preços e licitações são finalizadas.


No campo financeiro, a secretária explicou que o custeio das aquisições passou, em 2026, para a fonte de recursos federais, viabilizada a partir da revisão e do incremento no teto de Média e Alta Complexidade (MAC) conquistado pelo Rio Grande do Norte junto ao Ministério da Saúde.


Segundo ela, esse fluxo tem permitido pagar em dia os novos contratos e abater expressivamente os restos a pagar do exercício anterior, projetando o encerramento do atual mandato com a menor dívida da história do Walfredo Gurgel e com contas zeradas junto aos fornecedores.


Relatos

A reportagem esteve no Walfredo Gurgel na manhã deste sábado (22) para conversar com alguns acompanhantes sobre a situação da unidade. Uma mulher, que preferiu não se identificar, denunciou que faltam máscaras até para o acesso à Unidade de Terapia Intensiva (UTI). “Eu estava com um parente que, infelizmente, faleceu. Mas, para visitá-lo, era preciso trazer máscara de casa, porque não tem aqui e só é possível entrar na UTI se tiver esse item”, descreveu. O pedreiro Madson Silva está com o tio internado desde o último dia 14. Na segunda-feira (17), o curativo do paciente, que quebrou o pé, não foi trocado por falta de esparadrapo. “Ainda bem que no dia seguinte [na terça-feira], o problema se resolveu e eles voltaram a trocar o curativo. Desde então, não faltou mais esparadrapo”, contou o pedreiro.


Uma mulher que também preferiu não se identificar, falou à reportagem que a sobrinha dela precisou comprar dois medicamentos para o avô, que está internado no hospital há quatro dias, por conta de um AVC. “O pessoal da equipe deu uma receita dizendo que ele precisava tomar dois remédios que estavam em falta. Pelo menos, segundo minha sobrinha, os medicamentos não eram caros”, disse a mulher, que foi ao Walfredo deixar algumas roupas para a acompanhante.


A cuidadora de idosos Elaine Cristina, de 46 anos, está no Walfredo desde a quinta-feira (20), quando deu entrada com a sogra, que sofreu lesões na cabeça após uma queda. Segundo ela, até o momento, a assistência tem sido completa, mas ouviu de outras acompanhantes que a situação, no início da semana, era bastante crítica. “Me disseram que estava faltando tudo, desde insumos até alimentação para os acompanhantes”, narrou.

A ausência de itens importantes também foi relatada por profissionais do hospital, que conversaram com a reportagem em condição de anonimato. De acordo com as informações, dentre outros insumos, faltam álcool, papel e cilindro de oxigênio.

*Tribuna do Norte

Postado em 24 de agosto de 2026