“Superfungo”: especialistas falam sobre cuidados e prevenção após 1º caso de Candida auris em Natal

A confirmação, nesta quinta-feira (22), do primeiro caso de infecção pela Candida auris, um fungo resistente a múltiplos medicamentos, em Natal, gerou preocupação, especialmente devido ao potencial de disseminação do agente em ambientes hospitalares. A C. auris, conhecida como “superfungo”, preocupa os especialistas por ser resistente a antifúngicos convencionais, representando um desafio no tratamento. Contudo, especialistas reforçam que, com medidas adequadas de controle, a situação está sob controle e o risco de surto generalizado pode ser minimizado.

A infectologista Eveline Pipolo afirma que o paciente está em isolamento, e as autoridades sanitárias estão tomando todas as precauções necessárias para evitar que o fungo se espalhe para outros pacientes e profissionais de saúde. De acordo com a médica, a detecção precoce e a implementação imediata de medidas de contenção são essenciais para evitar complicações.

Ela explicou que a principal preocupação com a Candida auris não é tanto com a infecção em si, mas com a velocidade com que o fungo pode se espalhar dentro de um ambiente hospitalar: ele pode ser transmitido através de superfícies contaminadas, equipamentos médicos e até mesmo por contato entre pacientes e profissionais de saúde. “A C. auris pode passar para mão do profissional de saúde, que podem levar para outros hospitais, assim colonizando outras instituições”, explica, advertindo que os daí parte a necessidade de reforço nos protocolos de higiene.

No entanto, Eveline tranquiliza a população, explicando que o risco de transmissão fora de hospitais é extremamente baixo e que o foco está, justamente, na prevenção dentro das unidades de saúde. “As pessoas não precisam evitar os hospitais, pois já são ambientes que estão sendo cuidados”, destaca.

Eveline enfatiza que, embora a Candida auris seja uma preocupação em ambientes hospitalares, ele não representa uma ameaça significativa fora desses contextos, especialmente para pessoas com boa saúde.

A resistência da Candida auris aos antifúngicos é o que torna seu controle tão desafiador, mas, conforme Rafael Bastos, professor da UFRN, nem todas as cepas do fungo são igualmente resistentes. “Embora a Candida auris tenha resistência a alguns antifúngicos, no Brasil as cepas têm mostrado ser mais sensíveis, o que facilita o tratamento em casos diagnosticados precocemente”, afirmou o professor. Ele destaca que os hospitais têm protocolos rigorosos para o diagnóstico rápido do fungo, o que permite o início imediato do tratamento.

O primeiro paciente infectado no RN está internado no Hospital da Polícia Militar de Natal, onde as medidas de controle incluem o isolamento do paciente, o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) pelos profissionais de saúde, e a intensificação da limpeza e desinfecção, especialmente em áreas de risco, como Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). A desinfecção das superfícies é realizada com produtos específicos que combatem o fungo, e a equipe médica está sendo constantemente treinada para lidar com infecções como a Candida auris.

“Nos hospitais já existem protocolos de higienização e controle, que são adotados diariamente, então diante de uma situação dessas, o que difere que é esses protocolos passam a ser repetidos: se antes era higienizado uma vez, agora será duas, três, quatro vezes”, explica Rafael.

Além disso, os especialistas explicam que a Secretaria de Saúde do Estado (Sesap) está realizando a triagem de todos os pacientes que estiveram em contato com o infectado, monitorando sinais de colonização do fungo e realizando testes para garantir que não haja novos casos.

Complicações e mortalidade

A infectologista explica também que, em pacientes imunocomprometidos, como os que estão em tratamento para câncer ou doenças crônicas, a Candida auris pode causar infecções graves, que variam de complicações superficiais na pele até septicemia, quando o fungo entra na corrente sanguínea e se espalha para diversos órgãos. Isso pode resultar em um quadro clínico severo, afetando órgãos vitais como o coração, pulmões e rins. “A situação se torna ainda mais delicada quando o paciente já enfrenta outras comorbidades, como complicações provenientes de tratamentos imunossupressores ou doenças preexistentes”, adverte a médica.

Com relação à taxa de mortalidade, Eveline explica que, embora a C. auris não seja, em si, a principal causa de óbito nesses casos, ela pode acelerar o agravamento do estado geral do paciente, tornando o tratamento mais desafiador. A taxa de mortalidade relacionada ao fungo pode atingir até 50% em pacientes severamente debilitados. Dessa forma, o controle eficaz da infecção, por meio de diagnóstico precoce e de medidas rigorosas de contenção e tratamento, se torna essencial para minimizar os impactos do fungo e evitar a propagação do fungo nos ambientes hospitalares.

*Tribuna do Norte

Postado em 24 de janeiro de 2026