O Isolamento no Poder: O Custo Político da Ingratidão e da Bajulação

Diz um velho ditado político que o palácio do governo é um lugar com janelas espelhadas: quem está fora vê tudo o que acontece lá dentro, mas quem está dentro só consegue enxergar o próprio reflexo. Quando um gestor municipal decide, logo após a posse, fechar as portas para o grupo que carregou sua campanha no ombro e passar a ouvir apenas uma meia dúzia de chegados — quase sempre movidos por interesses particulares e privilégios —, ele não está apenas cometendo um erro estratégico. Está assinando uma promissória de cobrança cruel para o futuro.

A soberba do poder costuma anestesiar os governantes. Cercados por bajuladores profissionais, cujos acenos de cabeça servem apenas para garantir a manutenção de seus próprios benefícios, esses gestores passam a viver em uma bolha de falsa aprovação. Ignoram que quem vence uma eleição não vence sozinho; vence amparado por uma rede de apoiadores, lideranças de bairro e cidadãos comuns que gastaram a sola do sapato acreditando em um projeto coletivo. Ao desprezar essa base, o prefeito rompe o elo de lealdade que sustenta qualquer governabilidade real.

Esse isolamento voluntário frequentemente se estende à comunicação. Um dos sintomas mais claros dessa miopia política ocorre quando o gestor passa a desconhecer e ignorar a imprensa local. Movido pelo conselho torto de seus assessores mais próximos, ele passa a prestigiar e injetar recursos em veículos de fora, acreditando que uma maquiagem editorial externa e distante pode blindar sua imagem. Trata-se de uma ilusão perigosa. É a imprensa local, que vive o dia a dia do município, que realmente ecoa as dores e os anseios da comunidade. Tentar calá-la ou menosprezá-la em favor de assessoria terceirizada de fora é demonstrar desrespeito não apenas com os profissionais da região, mas com a própria população local que consome aquela informação.

A história política é farta em exemplos de líderes que se julgaram inabaláveis enquanto estavam no topo da máquina pública, cercados pelo incenso da adulação. No entanto, o tempo na gestão pública é finito e o calendário eleitoral é implacável.

A conta desse isolamento cobra seu preço lá na frente. Quando o mandato se aproxima do fim e chega a hora de descer do salto para pedir votos novamente, o cenário costuma ser desolador. Aquela meia dúzia de chegados, beneficiada durante anos, revelará sua total incapacidade de transferir votos ou de conter a insatisfação popular. E o exército de antigos aliados, que outrora defendia o governo com paixão, agora cruzará os braços ou, pior, estará nas fileiras da oposição. No dia do julgamento popular, o silêncio das urnas costuma ser o eco definitivo do desprezo semeado ao longo do mandato. Quem não sabe governar com as bases, dificilmente terá bases para voltar a governar.

Postado em 8 de outubro de 2026