28 de fevereiro de 2018

Psicologia da infidelidade: a traição é muito mais comum do que se imagina

É exatamente isso: se você está lendo esse artigo é porque já flertou, ainda que apenas em seu imaginário, com a infidelidade. Embora o tema seja rodeado por uma série de questões morais, a grande maioria das pessoas, segundo pesquisas da América do Norte e da Europa, acreditam que a infidelidade, de fato, não é algo lá muito aceitável. Por outro lado, muito embora se perceba uma censura social bastante ampla, a infidelidade é mais comum do que se imagina, principalmente no Brasil e América Latina, onde há um traço cultural geral, presente igualmente nos espanhóis, italianos e franceses, que aceitam a experiência como algo normal. 

Estimativas americanas sugerem que, de 10% a 25% dos casados, já cometeram, pelo menos uma vez, algum tipo de traição (1-2). Outros autores já apontam para estatísticas bem mais generosas, ou seja, citam que nada menos do que de 50% a 75% já teriam sido infiéis (3-4). 

Aqui no Brasil, uma outra investigação aponta que, entre os homens, o percentual daqueles que dizem já ter traído pelo menos uma vez na vida chega a 70,6% e, entre as mulheres, o número é de 56,4% (5). Ainda que as motivações sejam bem conhecidas por todos nós, uma coisa é clara: ocorre pelo simples fato de alguém não se sentir bem com o cônjuge, o que, obviamente, não é novidade para ninguém, entretanto, em uma grande parte das vezes, a culpa recai, quase que exclusivamente, sobre as faltas exibidas pelo parceiro ou parceira. 


Os relatos apontam para que o comportamento infiel seja normalmente justificado em razão direta de ser “algo aceitável” ou, ainda, em função direta das necessidades individuais não satisfeitas. Portanto, a busca por outro alguém ocorreria, ainda que de maneira “ilegítima”, como uma forma genuína de solução dos problemas matrimoniais (4). 

A discussão é ampla para ser esgotada aqui em poucas linhas, entretanto, seja esse comportamento entendido pela “falta de caráter” ou, ainda, uma maneira de tornar a relação em casa mais “sustentável”, uma coisa sempre passa despercebida aos nossos olhos. Traição revela inabilidade de lidarmos com nossos problemas mais íntimos Antes de a infidelidade ser uma maneira comum de se lidar com os problemas maritais, o que muita gente ainda não se deu conta é que a traição, na verdade, revela uma inabilidade pessoal de lidarmos com os nossos problemas mais íntimos. Eu explico. 

Antes de imputarmos a alguém a responsabilidade de não nos preencher plenamente –o que, diga-se de passagem, é um pensamento totalmente mágico, pois nunca existirá alguém que tenha essa real possibilidade–, deveríamos pensar o que nós, do ponto de vista privado, fazemos para manejar nossas sensações de frustração e de incompletude. Obviamente, que uma união mais duradoura não é tarefa para amadores, entretanto, no momento em que apontamos as falhas nos outros, deixamos de assumir as “nossas responsabilidades” no processo de realização pessoal/conjugal. 

 Assim sendo, a traição, antes de ser algo com o outro, é, antes de mais nada, um ato injusto para conosco. Nós nos traímos. Ao apontarmos no outro as falhas existentes, nos eximimos da responsabilidade real que temos sobre nossos sentimentos e sobre nossa verdadeira capacidade de nos tornarmos um pouco mais felizes. 

Assim, ao assumirmos uma posição vítima, muitas vezes, permanecemos por longos períodos de tempo –até por uma vida toda, quem sabe–, dizendo que em “função das crianças”, “dos problemas econômicos que isso criaria” ou qualquer outra razão, não somos felizes como um dia sonhamos. Portanto, se você não se encontra tão satisfeito em sua parceria afetiva, peço licença para lhe dizer que, em última instância, a responsabilidade é totalmente sua. 

Evidentemente que nossos cônjuges também participam na equação da realização do casal, mas tente não cair no erro de responsabilizar apenas e tão somente o outro pelas suas frustrações. Se, eventualmente, você perceber que está legitimamente insatisfeito –o que é absolutamente normal, pode acontecer–, faça alguma coisa. 

Mude sua vida pela porta da frente, não assumindo alternativas paralelas que, momentaneamente, podem servir de remédio para sua infelicidade. Um antigo psicólogo já dizia: “se lidássemos com nossos problemas com o intuito de resolvê-los, possivelmente, eles não seriam tão grandes”. 

A psicologia da infidelidade, assim, aponta para tomada de consciência de que nossa vida, antes de mais nada, é de nossa inteira responsabilidade. 
Pense nisso e exercite olhar as coisas por outro ponto de vista. 

 UOL, via Blog do Dr. Cristiano Nabuco

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